Física Quântica e relativística é, simplesmente, Física, pois a natureza é quântica e relativística. E não tem nada de esotérico e de sobrenatural. Esta história de que a Física Quântica tem alguma coisa a ver com uma propalada “Consciência Cósmica” não tem fundamento. A Física Quântica não dá suporte nenhum para a crença na existência de Deus. Se grandes físicos foram teístas, outros tantos foram ateístas, e isto não conta contra nem a favor do teísmo nem do ateísmo. Argumento de autoridade é balela. O que importa são os fatos em si e não quem os contou. Tenho a mente aberta para toda e qualquer possibilidade, mas que sejam muito bem fundamentadas em evidências ou, pelo menos, em fortíssimos indícios. Ainda não vi nada disso no esoterismo quântico. Amit Goswami, Fritjof Capra, Deepak Chopra e outros que tais, pelo que posso inferir, são grandissíssimos enganadores.
Como a existência de Deus não é uma evidência sensorial primária, sua veritação precisa ser obtida por comprovação que se baseie em cadeias de comprovações que, na última instância, fundamentar-se-á em evidências sensoriais diretas, mesmo que auxiliadas por instrumentos. O ônus da prova recai sobre a comprovação de sua existência e não da inexistência. Assim, a priori, considera-se que Deus não exista, até que se prove que exista. Se não se provar que Deus existe, é para se supor que não exista, mas se não se provar que Deus não existe, não se pode considerar que exista, mas apenas que possa existir. Evidentemente, qualquer crença na existência ou inexistência de Deus, não se reveste de argumento a favor ou contra isto, mas, se for acompanhada de um elenco de fortes indícios, num ou noutro sentido, pode embasar a maior plausibilidade da existência ou da inexistência. Meus conhecimentos indicam a maior plausibilidade da inexistência, daí minha posição ateísta cética.
O fato de não se ter explicações naturais acabadas e inquestionáveis sobre questões ainda em aberto na ciência, como as origens do Universo, da vida e da consciência, não significa que elas não existam e que se deva, então, abandonar a busca de explicações naturais e aceitar as sobrenaturais. Inclusive porque as aventadas explicações sobrenaturais não explicitam os pormenores dos mecanismos do que se propõem a explicar, como se exige das explicações naturais. Considero muito mais gratuito e exótico introduzir a existência de Deus no processo explicativo, do que admitir que ainda não se sabe qual é a explicação. A Cosmologia, a Física, a Biologia e a Neurociência estão envidando ingentes esforços para chegar lá, e não se pode arguir que já houve tempo suficiente para isto, pois a espécie humana, a civilização e a ciência são extremamente jovens neste planeta.
A se usar de prudência, como recomendo, há que se deixar a questão em aberto e ficar sem a resposta, por enquanto e isto pode perdurar por muitas e muitas dezenas ou centenas de anos. Mas, a não ser que se obtenham provas cabais de que a explicação seja a interveniência de Deus, e que se mostre pormenorizadamente como esta interveniência se deu, além de se obter uma descrição completa e verificável das propriedades de Deus que não sejam meras “doxas” ou informações tiradas das suspeitíssimas “Escrituras Sagradas”, não me sinto capaz de aceitar Deus como explicação para coisa alguma.
Estou cansado de ver cientistas mostrarem que tal ou qual fenômeno não consegue ser explicado pelos conhecimentos atuais da Física ou da Biologia e, então, tirarem do bolso da casaca que “logo”, tem-se que considerar que a explicação é a interveniência de Deus. Posso até admitir que possa ser, mas de forma alguma, até agora, isto ficou comprovado. E, como já disse, o ônus da prova é este.
A sensação que se tem de que os pensamentos, sentimentos, emoções, lembranças, enfim, toda a vida psíquica residem “fora” do corpo, de fato pode levar a supor que exista uma entidade extra, a “alma” que fosse a sede do psiquismo, enquanto certas sensações, como dor, frio, coçeira e outras parecem residir no local de sua ocorrência no corpo. Isto é uma ilusão. Nem as sensações se dão no próprio lugar nem o psiquismo se dá fora do corpo. É no interior de cérebro que essas ocorrências se sucedem. Experimentos com portadores de lesões cerebrais e, atualmente, técnicas de imageria neurológica permitem localizar todas essas ocorrências, se bem que ainda não sejam capazes de identificar seus conteúdos. É uma questão de tempo e se chegará lá. O apelo a noções transnaturais, como a de “espírito” não se faz necessário. Acreditar que se possua alma porque se tem este sentimento não pode servir de base à comprovação de sua existência. Dizer que se precisa primeiro “crer” para então “ver” é uma incoerência. A crença é capaz de fazer ver qualquer coisa, como bicho-papão, papai-noel, fadas, duendes, saci-pererê e assim por diante. Dizer que se vê no que se crê não tem cabimento. Se for assim, tudo que se quiser que seja verdade o será, basta acreditar, como se proclama no famigerado livro “O segredo”.
Pretender achar o significado dos fenômenos quânticos em saberes mitológicos, para mim, de fato, é ingenuidade. Certamente que a Física Quântica e a Relatividade possuem um alto componente filosófico, se não formos pragmatistas, como muitos cientistas adeptos do positivismo. A ciência não deve apenas investigar “como” o mundo funciona, mas também, “porquê”. É válido se fazer um cotejo entre as interpretações da Mecânica Quântica e vários mitos, sob um aspecto crítico, mostrando as coincidências. Isto não dá aos mitos nenhum “status” de validade e nem se pode basear neles para construir as interpretações, que têm que ser gestadas por reflexão filosófica sobre as evidências observacionais das conclusões teóricas.
Há muitos indícios de que Deus não existe. Primeiro temos que descartar, de pronto a noção de que Deus seja onipotente, onisciente e bom, pois a existência do mal, de pronto, mostra que tal tipo de ser é contraditório e, logo, não pode existir, pois se ele tem o poder de evitar o mal e não o faz é porque não é bom. Fiquemos só com a onipotência e a onisciência. Isto é, Deus não é bom. Em suma, abandonemos o teísmo e fiquemos só com o deísmo e o panteísmo como nossas possibilidades.
Pelo Deísmo Deus apenas criou o Universo e largou de lado e pelo Panteísmo, Deus está impregnado no Universo. Nos dois casos é um ser com inteligência, vontade e sensibilidade, só que o deísta é extrínseco ao Universo. Na concepção deísta, o Universo teve um começo em que foi criado por Deus, que sempre existiu, mas não faz parte do Universo. Fora Deus, então não havia nada. O conteúdo do Universo não é parte do conteúdo de Deus, senão ele seria natural e integrado ao Universo. O problema de Deus ter feito surgir tudo sem que antes houvesse nada é semelhante ao do surgimento de tudo sem Deus nenhum, apenas que tem um agente causador, mas o conteúdo continua provindo de nada. E mais, se Deus é uma coisa que pode existir eternamente sem ter sido criado por ninguém, porque não o próprio Universo? Caímos no panteísmo, isto é, Deus é o próprio Universo. Só que um Universo com inteligência, vontade e sensibilidade, isto é, a tal consciência cósmica e o tal desenho inteligente.
Para haver a consciência cósmica seria preciso que existissem formas de intercomunicação direta e quase instantânea entre todas as partes do Universo. Pode ser que isto seja possível e existem estudos dessas possibilidades, ainda inconclusivos. Mas vejo dois problemas. O primeiro é que, na verdade, o panteísmo considera Deus não exatamente como o próprio Universo, mas como uma entidade “imanente” a ele, isto é grudada como um imã mas distinta, mais ou menos como se entende o corpo e a alma de uma pessoa. No deísmo, Deus não é imanente, mas extrínseco. Nos dois casos há o problema da natureza da substância de Deus não ser física, isto é, nem campo, nem matéria, nem radiação, e, ao mesmo tempo, interagir com o mundo físico. Ainda não se conseguiu observar este tipo de ocorrência. Outro problema é que o Universo não demonstra seguir uma evolução inteligente coisa nenhuma. Na verdade a evolução é bem caótica e completamente imperfeita. Porque existem doenças, por exemplo?
A haver algum Deus, a maior plausibilidade seria pela concepção deista, isto é, um ser onipotente responsável pela criação do Universo, mas não provedor contínuo de sua existência, deixada a cargo das leis que lhe regulam o funcionamento. Isto se estende à vida dos seres humanos, ou seja, orações seriam inteiramente inócuas. No entanto, mesmo nesta concepção, como sua existência não é evidente, há que se provar que exista. E não há prova alguma disso, pelo que eu conheça. A existência de qualquer modalidade de deus não é necessária para se explicar coisa alguma. Então, para que supor que exista?
Nem a Física Quântica nem a Relatividade proporcionam o mais leve indício de que exista alguma inteligência planejadora e ordenadora dos eventos da natureza. As denominadas “Leis Físicas”, não são determinações apriorísticas a serem seguidas pela natureza, mas sim, súmulas descritivas do comportamento observado nos fenômenos naturais. A noção de ordem, harmonia e beleza da natureza é improcedente. Singularmente há um prevalecimento da ordem e da beleza na região em que nos encontramos e na escala de dimensões espaciais e durações temporais a que temos acesso. Todavia no macro e no microcosmo, bem como na mini e na microbiosfera, domina uma situação extremamente belicosa e caótica, verdadeiramente horripilante. Germes e anticorpos permanecem numa infindável batalha, muitas vezes vencida pelos primeiros, redundando em doenças, que, por si só, mostram a imperfeição da natureza. Nos núcleos das galáxias a situação é de uma terrível predação de massas umas pelas outras, sem o estabelecimento de nenhum padrão de ordem. Isto acontece também no cinturão de asteróides. Mesmo num nível mais próximo do humano, nos oceanos e nas selvas, presas e predadores vivem em contínuo embate. Entre os insetos é o mesmo que se dá. Leis, como a da Gravitação Universal, que descrevem como os planetas orbitam o Sol, aparentemente produzem um funcionamento harmônico do Sistema Solar porque este é muito rarefeito e a ação do Sol sobrepuja enormemente a interação mútua entre os planetas. Mas isto não se dá no cinturão dos asteróides ou nos anéis de Saturno, em que o comportamento caótico predomina. A dinâmica da atmosfera é outro exemplo de que as leis na natureza não conduzem a harmonia nenhuma. Não estou dizendo que tudo é caótico. Existem sistema muito bem regulados, como os organismos vivos. Mas não são perfeitos, tanto é que existem doenças. Na vida social os conflitos interpessoais, o crime e a maldade deixam patente a imperfeição da denominada “criação”. O apelo à perfeição da natureza como testemunho da existência de Deus, portanto, não procede. Ou então tal entidade é incompetente, não possuindo os atributos de onipotência e bondade que lhe são conferidos.
